- Histórias de verão por Michelli Provensi
Chegamos, mas sem afobação. A casa era tão bonita que até a poeira parecia posicionada com intenção. As janelas altas deixavam entrar uma luz que lançava um feixe nos corredores, uma passarela para os salões e seus quadros de uma realeza do passado. Pouco importava quem por entre aquelas paredes desfilou nos verões anteriores. Estávamos juntas, e esse é o passo mais importante dessa história.
Fomos as últimas a sair da mala. Sempre somos. Os sapatos no geral não têm pressa. A gente entende que primeiro vêm os vestidos, os sutiãs sem ferrinho, os blazers de linho, as nécessaires que se multiplicaram com as rotinas de beleza. Os livros também sabem que os últimos serão os mais aproveitados. Me perdoem as regatas de seda, mas em viagens os mais repetidos ainda somos nós.
Anne Sophie foi tirada com cuidado e colocada em par na janela, como se, do espreguiçar da sua flatform, pudesse contar sobre a vista de oliveiras centenárias que se perdiam no horizonte. Anne Marie caiu no chão com um som abafado, depois girou sozinha, provando que rasteiras são, além de leves, rápidas. Harper emulava um jogo de não sei em que canto fico. Tinha passado a viagem toda reclamando da posição na mala. Natural, é a mais alta de todas, sofre na mala econômica.
Aproveito e me apresento. Sou Anne Louise. Mules são sempre descoladas. Claro que fiquei junto à porta onde gosto de estar, pronta para bater sola por aí.
Deu para perceber que somos da mesma família, não é? Mas nossas humanas não. No andar de cima se ouvia o tititi delas ecoando em planos para os próximos dias. Tinham rido no carro, no avião. Amizade boa se mede em assunto que não se esgota. E nessa vontade de caminhar juntas.
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Monopoli nos recebeu com uma brisa quente e um desejo de deitar na areia, nas espreguiçadeiras, nos olhos dos outros. A cidade parecia ter sido feita por alguém que queria muito impressionar, mas acabou sendo charmosa sem esforço.
Harper sentiu quando a mão desceu até ela, o toque breve antes de ser calçada. Sua humana sempre começava a se vestir pelos sapatos, uma mulher de olhar demorado no espelho e indecisa com anéis e brincos. Com um shorts branco optou por mostrar bem as pernas alongadas por sua plataforma de ráfia.
No Cala Masciola Beach Club, Harper pisou na madeira clara do deck com a segurança de quem sabe pisar em qualquer terreno. Suas tiras de couro se aqueciam no sol enquanto os pés descansavam na posição e horizonte perfeito para um Limoncello Spritz.
“Prosecco, limoncello bem gelado, um splash de água com gás, folhas de hortelã e uma fatia generosa de limão siciliano”, murmurou a garçonete enquanto preparava a bebida dourada. Harper observou as bolhas subirem no copo, pensando que também ela tinha suas camadas. O couro trabalhado, o revestimento de palha, o salto que eleva sem esforço.
O gelo tilintou no copo quando a brisa marinha balançou a mesa. Harper se acomodou melhor, sabendo que momentos assim pedem sapatos que não tenham pressa de ir embora.
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A ida a Polignano a Mare começou cedo, com as janelas abertas e cabelos ainda úmidos do dia anterior. No carro, as amigas falavam de comida, amores antigos, de um hotel em Comporta que ninguém conseguia lembrar o nome. No banco de trás, uma delas lia em voz alta um parágrafo de um livro italiano, exagerando nos gestos e arrancando o riso do motorista.
Se Harper era feita para decks e coquetéis, Anne Marie nasceu para aventuras. Quando viram as falésias brancas recortadas contra o mar turquesa, Anne Marie já sabia que seria escolhida. Suas solas tinham aderência perfeita nas pedras calcárias. Enquanto as outras descansavam na toalha de piquenique, Anne Marie já estava nos pés, pronta para a descida íngreme até as águas cristalinas. “Cuidado com as pedras molhadas”, alguém gritou, mas Anne Marie riu por dentro. Rasteiras sabem de equilíbrio como ninguém. Têm o centro de gravidade baixo, a base larga, a confiança de quem conhece o chão.
O mergulho foi um voo breve. Anne Marie ficou na borda da falésia, observando o corpo que a levava se lançar no azul profundo. Depois, silêncio. Depois, o barulho da água se abrindo. Depois, as palmas das amigas. Ninguém filmou, o acordo foi passar o verão longe das telas.
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Foram andando pelo centro ainda com o sal nas pernas. O calor do meio dia pedia uma pausa, e Il Super Mago del Gelo apareceu como um oásis na rua principal de Polignano. Anne Sophie e sua flatform saturno ocupavam o espaço com elegância entre os turistas de tênis que se aproximavam do balcão refrigerado. A cidade estava repleta de jovens atletas que participavam de uma competição internacional de saltos ornamentais.
Os sabores cremosos dos gelatos expostos como joias em bandejas de metal. Pistacchio, claro! Verde como as oliveiras que passaram ontem na estrada, doce como as tardes que ainda estavam por vir. A amiga pegou o de stracciatella. A terceira não pediu nada, mas provou todos. Anne Sophie sentiu o frescor do mármore do café aberto em 1935 subir por sua sola enquanto nas mãos da jovem brasileira o espresso fumegava na xícara minúscula de porcelana. Uma das amigas fotografou a outra lambendo o gelato, depois apagou a foto. “Férias analógicas”, lembraram se do pacto. Mas nada impedia que uma delas desse seu número de telefone para o simpático moreno alto de mocassim.
Foi Anne Sophie quem percebeu os olhares admirativos de um casal de franceses na mesa ao lado. Sapatos elegantes fazem qualquer pausa parecer sofisticada, pensou.
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O dia seguinte começou seco, como quase todos ali. O vento soprava do interior e parecia mais quente que o sol. Saíram cedo. Queriam evitar as multidões, mas chegaram tarde demais para isso. Alberobello já fervilhava com turistas que tiravam fotos de portas, gatos e telhados de pedra como se tudo ali pedisse registro. Eu estava nos pés da mais falante das quatro, aquela que andava rápido quando queria parecer tranquila. Deslizei pelas pedras arredondadas das ruelas como se tivesse nascido ali, entre os símbolos místicos pintados nos telhados cônicos. Mules têm essa vantagem: entram e saem com facilidade. Somos práticas sem perder o charme, confortáveis sem abrir mão do estilo.
O Rione Monti parecia saído de um livro de contos de fadas que alguém esqueceu aberto no sol. As pedras refletiam a luz com força e qualquer sombra era um convite para uma pausa. Paramos para ver uma vitrine de panos bordados. A mulher da loja tinha os cabelos trançados e é claro que também notou meu trançado sutil. Comentou com minha dona que nunca tinha visto uma mule rafiada antes e contou que ali todos se conheciam, inclusive os sapatos.
Andamos mais um pouco, depois nos apoiamos no degrau de uma casa com uma maçaneta de ferro antiga. As amigas dividiram um pacote de taralli e riram de alguma coisa que não importava. Alguém disse que poderia morar ali. Outra respondeu que só nas férias de outono.
Soube que era hora de voltar quando minha dona se levantou devagar, com um som quase imperceptível de joelho estalando. Caminhamos até o carro sem urgência. Ainda era cedo, mas o dia já estava cheio o bastante. E o doce aperitivo do dia seria fazer niente.
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Fizemos niente por cerca de duas horas e quarenta minutos. Deitamos no frescor da sala, enquanto elas bebiam água com gás como se fosse gin tônica e folheavam os livros que tinham prometido ler. Quando voltamos para a rua, a luz já estava mais baixa e o cheiro de manjericão vinha antes da placa de madeira da trattoria.
A Trattoria Terra Madre tinha o nome certo para o que nossas humanas precisavam. A mesa era de ferro, o banco de madeira, e o garçom trouxe pão antes de qualquer conversa. A culinária pugliese era vasta, mas ao abrir o cardápio, a amiga que costuma demorar foi a primeira a apontar:
Orecchiette al pesto!
A pronúncia saiu exata.
Receita:
- orecchiette fresca;
- pesto de manjericão feito na hora;
- tomatinhos cortados ao meio;
- um fio de azeite bom;
- e o silêncio que acontece quando tudo vem à temperatura certa.
O prato chegou com perfume de quintal. A pasta quente, o pesto verde e brilhante, os tomates que sabiam de tudo sobre sabor. Fiquei ali, quieta, segurando tudo. A perna dobrada, o tornozelo apoiado em mim, o peso do dia encostado no calcanhar.
Se tivesse a chance de ser colocada como um telefone perto do ouvido de alguma delas, teria sussurrado: por favor, peçam um cremoso al limone. Mas não, elas andam ouvindo muito os óculos de sol, que só pensam em senso estético.
Quando o garçom trouxe o café, a amiga da ponta perguntou se já era sexta. Ninguém soube responder com certeza. Foi aí que desmontaram, embaixo do guardanapo, a pilha de celulares.
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Acordamos com a luz atravessando as cortinas e o despertador nos entre bips soou o alarme: vocês ainda têm Lecce, deixem para dormir na praia amanhã, meninas!
As malas não foram abertas de novo. Elas só colocaram as roupas leves de ontem e uma pulseira nova num gesto que sempre confunde os relógios. Nos pés Anne Marie e Anne Sophie foram as primeiras escolhas. Em dia de passeio de bicicleta quem segura bem o tornozelo e não compete com o pedal ganha a preferencial. Fiquei enciumada, afinal Mules sabem se adaptar ao improviso. Mas num aceno de quem pensa no flerte da noite, minha dona me colocou numa bolsa junto com um livro da Maria Ribeiro. Fiquei colada ao título: Não sei se é bom, mas é teu. Não sei se foi bom ficar para lá e para cá na cestinha da bicicleta, fiquei receosa que arranhasse meu salto, mas tentei respirar fundo como fazem as almofadas que vão parar em sofás de casas de praia.
Lecce brilhava. Conhecida como a Florença do Sul, nos abraçou com sua arquitetura barroca dourada entalhada em calcário claro e amarelado, típica do século XVII. A cada esquina, uma varanda com grandes curvas e igrejas que aparecem de repente do tamanho de uma quina de quarteirão. As ruas são frequentemente interrompidas por pequenas praças arborizadas ou cafés com mesinhas na calçada. Turistas, como nós, alugam bicicletas simples ou e-bikes, enquanto ciclistas locais se deslocam com habilidade por ruas estreitas, desviando de pedestres e de scooters que passam em zigue zague sem freio.
Paramos numa esquina onde as luzes miúdas começavam a piscar entre os fios pendurados. Uma delas encostou no muro, a outra sentou no chão, a terceira olhou para o céu. Vai, tudo bem… esse final de tarde alaranjado merece uma foto.
À noite, caminharam pelo centro histórico iluminado. As pedras douradas de Lecce ganharam tons de mel sob a luz artificial. Como num filme italiano, os pés lavados numa fonte, fui calçada e assumi o comando. Queria encontrar um lugar para dançar.
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A música vinha de uma porta entreaberta na Via Templari, onde as pedras douradas pareciam pulsar no ritmo das batidas que escapavam para a rua. Era um daqueles lugares que só existem quando se está de férias: pequeno, íntimo, com pessoas que dançam porque querem e algumas que precisam parecer que sabem.
Entrei confiante no chão de madeira gasta. Harper e seu bailado já dominavam a pista. As outras Annes, num tesourar de cruzadas de pernas, apontavam o bar de onde a fila para o negroni sbagliato confundia o barista e fazia rir quem esperava. Turistas ingleses tinham descoberto o hit A far l’amore comincia tu da Raffaella Carrà e importunavam a DJ pedindo a versão da Dua Lipa que existia apenas ao vivo.
Quando saímos, já passava das duas da manhã. As ruas de Lecce estavam vazias, mas ainda mornas. Passamos no hotel, nos acompanharam os biquínis e nos dirigimos pela costa do Mar Adriático.
A última praia da viagem nos encontrou em silêncio. A areia ainda estava fria, mas já prometia dourar. As amigas caminharam sem falar, deixando os sapatos lado a lado como se soubessem que também precisávamos desse momento juntas. Ficamos ali, enfileiradas, meio tortas, com marcas de noites dançadas e pedras no solado. O tipo de exaustão boa que só férias entre amigas causam.
Lá na frente, elas mergulharam. A água parecia um espelho antes de ser rompida pelos corpos. Depois, só o som breve de riso, respiração, braços abrindo caminho. O céu começava a se tingir de rosa por trás das pedras e o sol, discreto como quem respeita finais.
Paula Torres
Para todas as histórias que seus pés querem contar.
Por Michelli Provensi




















