Enguia: o novo animal print da temporada
Por algumas temporadas, falar em animal print significava pensar em leopardo, onça e zebra. Agora, o repertório se amplia. Python, tigre, cow print, shiny eel skin e superfícies que reproduzem o efeito de peles exóticas passam a ocupar um espaço importante nos acessórios, especialmente em bolsas e sapatos.

Na The Row, o Soft Loafer aparece em shiny eel skin, inserindo a textura de enguia em um dos shapes mais essenciais do guarda-roupa contemporâneo. O modelo também integra o guia da Vogue dedicado aos best-selling shoes da maison, ao lado de outros ícones da marca, reforçando como materiais especiais e construções minimalistas vêm ocupando um lugar central no desejo de consumo. Kendall Jenner e Zoë Kravitz estão entre os nomes associados aos loafers da The Row, dentro de uma estética em que a riqueza do material muitas vezes fala mais alto do que qualquer elemento ostensivo.

A Saint Laurent também incorporou o couro de enguia ao universo dos loafers. Sob a direção de Anthony Vaccarello, o Le Loafer ganhou versões em tons profundos, como preto e bordô, mantendo o bico alongado, a costura manual e a ferragem Cassandre. A maison também levou o material ao Le Loafer Bateau, aproximando a textura de uma construção ainda mais cotidiana.
A Fendi deu uma escala ainda maior ao material em seu Fall/Winter 2025. A coleção apresentou couro de enguia em vestidos, saias, botas e bolsas, incluindo peças com desenhos em chevron que transformavam a textura em parte central da silhueta. O efeito deixava de ser um detalhe restrito ao acessório e passava a construir o próprio ritmo visual da coleção.
Na Ferragamo, a leitura ganha outra dimensão. A maison levou a enguia para diferentes acessórios e calçados, com versões em eel leather e acabamentos luminosos. Para o Fall/Winter 2026, o material também reaparece na Hug Bag, um dos modelos mais reconhecidos da fase de Maximilian Davis à frente da casa, reforçando a presença da enguia dentro de um repertório de superfícies exóticas que volta a ganhar espaço na moda.

O movimento vai além dessas maisons. Uma análise recente da Who What Wear identificou eel e ostrich entre as texturas animais emergentes de 2025 e 2026, citando Fendi, Khaite, Ferragamo e The Row entre as marcas que vêm explorando essa estética. A publicação chama atenção ainda para uma mudança importante: essa linguagem visual não depende necessariamente da pele original. Couros e outros materiais podem ser gravados, texturizados e trabalhados para reproduzir efeitos inspirados nessas superfícies.
Vistas em conjunto, essas interpretações mostram que a presença da enguia não está concentrada em uma única maison ou categoria. Ela atravessa loafers, bolsas, mules, botas e peças de ready-to-wear, sempre associada a formas reconhecíveis e a um interesse renovado pela materialidade.
A força da enguia está na maneira como ela responde ao olhar. Seu desenho não é tão gráfico quanto outros animal prints. As linhas são menores e mais contínuas, criando um relevo que pode parecer discreto em cores escuras e muito mais evidente quando combinado a acabamentos metalizados. Isso permite que o material ocupe um lugar inesperado. A forma permanece familiar. A textura animal deixa de depender de uma estampa gráfica imediatamente reconhecível e passa a se revelar pelo relevo, pelo brilho e pelo movimento do material. De longe, pode parecer quase monocromático. De perto, a superfície ganha profundidade.
Essa mudança torna a tendência mais fácil de incorporar ao guarda-roupa. Um sapato com textura de enguia não precisa ser tratado como o centro absoluto da produção. Ele pode ocupar o mesmo lugar de um modelo de couro liso, acrescentando interesse sem alterar completamente a linguagem do look.
Em preto, azul profundo, chocolate ou bordô, a textura aparece de maneira contida. O efeito se revela principalmente no movimento. Em tons metalizados, a leitura se torna mais luminosa, mas ainda preserva a sofisticação do relevo.
Como a paula torres intrerpretou essa tendência?
É dentro dessa pesquisa de superfícies que a Enguia ganha uma leitura própria na Paula Torres.
Na coleção “O Encontro”, Enguia é o nome dado ao efeito visual, não à matéria-prima. Os modelos são produzidos em couro bovino, trabalhado para receber uma textura inspirada nas linhas finas e no relevo característico da pele de enguia.
A referência internacional é reinterpretada a partir do vocabulário da marca. Em vez de reproduzir o material de forma literal, a Paula Torres concentra seu olhar naquilo que torna essa superfície desejável: a profundidade, a irregularidade e a relação com a luz.
O trabalho começa no couro e continua na construção artesanal de cada sapato. A textura não entra como um detalhe acrescentado ao final. Ela participa do desenho desde o início e muda de expressão conforme encontra diferentes formas, cores e acabamentos.
Em preto, a Enguia aparece de maneira discreta e precisa. No dark blue, o relevo cria variações de profundidade dentro da própria cor. No dourado, a superfície ganha luminosidade e transforma cada movimento em um novo ponto de luz.

Do Mocassim Chiara ao Scarpin Olga
No Mocassim Chiara, a Enguia encontra uma construção estruturada, com bico quadrado e linhas que equilibram presença e funcionalidade.
As versões preta e dark blue preservam a facilidade de um mocassim clássico, mas o couro texturizado acrescenta uma informação que só se revela por completo de perto. São modelos que podem acompanhar alfaiataria durante a semana, jeans em momentos mais casuais ou vestidos quando a intenção é criar um contraste entre leveza e estrutura.
No Mocassim Chiara Ouro, o mesmo shape assume outra personalidade. O metalizado amplia o relevo e faz com que a textura se torne mais visível, sem afastar o modelo do cotidiano.
A Sapatilha Chiara leva esse trabalho para uma silhueta de bico fino. Em preto, oferece uma leitura delicada e contida. Na versão dourada, funciona como um ponto de luz, capaz de atravessar compromissos durante o dia, jantares e eventos.
Já o Scarpin Olga Ouro explora a expressão mais luminosa da Enguia. O bico fino, o salto e a construção slingback criam uma linha precisa, enquanto a superfície metalizada acrescenta movimento. Com um vestido, acompanha uma ocasião especial. Com jeans ou alfaiataria, ganha uma leitura menos formal.
A textura permanece a mesma. O que muda é a maneira como cada shape permite percebê-la.
Como usar sapatos com textura de enguia?
A forma mais natural de usar sapatos com textura de enguia é começar por peças que já fazem parte da rotina.
No dia a dia, mocassins e sapatilhas texturizados podem acompanhar jeans reto, camisas, tricôs leves, saias midi e vestidos de linhas simples. A textura acrescenta profundidade a combinações conhecidas sem exigir uma produção muito elaborada.
Cores neutras ajudam a destacar o relevo do couro. Preto, branco, creme, cinza, chocolate e azul-marinho criam uma base precisa. Tons mais suaves, como rosa pálido ou azul-claro, trazem um contraste menos óbvio e deixam o resultado mais contemporâneo.
Também não é necessário repetir o animal print em outros acessórios. A presença de um único elemento texturizado já constrói a informação visual do look.

No guarda-roupa de trabalho, a enguia encontra seu espaço com facilidade quando aplicada a shapes clássicos.
Um mocassim de couro texturizado pode substituir um loafer tradicional em combinações com alfaiataria, camisa branca, blazer ou vestido midi. Em preto ou azul profundo, o relevo permanece discreto e só ganha maior definição conforme a luz encontra o sapato.
A sapatilha de bico fino oferece uma leitura mais delicada. Com calças amplas, saias retas ou vestidos de construção limpa, ela acrescenta textura sem comprometer a sobriedade do conjunto.
O scarpin em ouro leva a textura para um registro mais sofisticado. O acabamento metalizado evidencia o relevo da enguia e funciona como um ponto de luz em produções com alfaiataria, vestidos midi e looks monocromáticos, acompanhando com naturalidade o dia e a noite.




